segunda-feira, março 26, 2007

Divagando, em plena luz do dia...

Almocei sozinha hoje, pela segunda vez na semana. Sempre tive um sentimento contraditório em relação à solidão. Odeio estar só, mas é só quando estou sozinha que me encontro. Por isso, às vezes, lhe sou grata. E hoje foi um desses dias.
Em meio a um burburinho incessante, comum ao maior shopping da América Latina no horário do almoço, entre estômagos famintos, entre passos apressados, deparei-me com o silêncio. Pedi licença para sentar-me a seu lado, e ela assentiu numa voz suave e, cabisbaixa, se desculpou. "Desculpa" - disse.
Lia, compenetradíssima, um livro de papel reciclado. Indiferente a tudo. Presa em seu mundo. Despertou momentaneamente ao sorrir de uma criança, e devolveu-lhe o sorriso. Em minha torpe imaginação, chamei-lhe Carina. Carina era a típica menina tímida da escola, longe de ser popular. Será que Carina se importava? Será que queria ter nascido bela? Reconheci parte de mim em Carina. Parte de mim perdida no tempo, na adolescência de sonhos falsamente realizáveis e de dores inacabáveis. Desejei ser Carina. Despercebida, em paz com ela mesma.
A palavra desculpa ecoava ainda em minha mente. Por que teria me pedido desculpas? Por estar ali, ocupando um espaço que supostamente não deveria ser dela? Por não pertencer àquele lugar? Definitivamente, não era Carina, e sim o lugar que não lhe pertencia. Ignorante a isso, Carina lia. E pedia desculpas, por existir.

6 comentários:

Fil Porto disse...

Tati, lança logo o livro,pára de enrolar...seu talento continua à pleno vapor, tanto no simbolismo como no conjunto da obra.Seu domínio pela nossa língua é um primor, e a qualidade de seus textos..fabulosos...até que a fase ultra romântica lhe cai bem..hahahahahhahahahahahahaa...
Bjs e mais uma vez parabéns.

[copos vazios] disse...

Nooooooooooossa Tati!
Que texto é esse?!
A união suave e intensa que você faz com as palavras,a reflexão...
Que talento!
Sabe, me dá gosto ler um texto assim... Com tanta riqueza de palavras, com tanta doçura.
De uma situação banal do dia-a-dia, você criou uma obra-prima.
Lindooooooooo demais!
Sem palavras pra elogiar seu talento.

Parabéns mais uma vez!!!!!!!!
E que venha mais textos lindos iguais a esse para você compartilhar conosco.

Utopia Urbana disse...

Olá!

Sou amigo da [copos vazios] e achei seu blog por aí!

Eu já gosto de almoçar sozinho. Mas às vezes sinto falta de companhia.

Enfim, texto singelo e bonito.

Fil Porto disse...

A solidão urbana nos leva à momentos de reflexão interior, um belo exemplo é o aqui citado, mas outros são o mero fato de sair a rua e mesmo se deparando com várias pessoas, ninguém lhe reconhecer, passar indiferente, sem cumprimetar...agora imagine a mesma cena em uma cidade do interior, onde todos se conhecem,mesmo que poucas vezes se vejam,sempre irão conhecer uns aos outros.
Então, um mero almoço num shopping urbano do Rio é um belo exemplo de solidão na multidão...você não é você, você é só mais um número na multidão.

Anônimo disse...

Eu tb ti amo !!!

Bjos...Joch Lemos

Doug disse...

Só pra lembrar q vc tem um fã..

Quem sou eu

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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Bacharel em Letras-Português Inglês pela UFRJ - Jornalista formada pela UNESA. Por mim mesma (26/07/2007) Não sei desenhar. Não vejo novela. Não sei quem é a atriz do momento. Como a nêga, nunca fui à Bahia não. Nem quero ir. Não gosto de mate. Não faço pilates. Nem ioga. Odeio Paulo Coelho. Abomino Jabour e Mainardi. Não queria morar numa cabana. Não queria ter um iate. Queria ter menos preguiça. Queria ter menos vontade. Queria tocar piano. Queria cantar. Bem alto. Queria ler todos os livros bons. Queria ler a alma, dos maus. Queria comer chocolate e não engordar. Rir na hora de calar. Queria ter mais amigos verdadeiros Queria ter menos amores vãos. Queria ter poderes mágicos. De parar o tempo. De fazer voltar as horas. Queria ter mais vidas Pra caber tudo Que eu queria ser.