quinta-feira, novembro 15, 2007

Osso duro de roer

Desde "o melhor filme nacional de todos os tempos" até "fascista", os rótulos dados a "Tropa de Elite" são tão ou mais polêmicos que o próprio filme. Uma outra polêmica precedeu a de seu enredo - estima-se que "Tropa" tenha sido assistido por mais de 11 milhões de pessoas antes de seu début nas grandes telas. O diretor José Padilha antevia a controvérsia que sua trama poderia causar, mas não poderia prever que seu filme "vazaria" antes de sua estréia, e muito menos que se tornaria um fenômeno de pirataria, fomentando ainda mais o amplo debate sobre essa indústria e sobre o direito à propriedade intelectual.
O ponto que pretendo abordar, no entanto, passa ao largo dessa discussão, reconhecida aqui sua relevância. O tema a que me refiro diz repeito às diferentes reações causadas pelo filme. Em artigo de seu blog, sob o título "'Tropa de Elite é fascista?" (http://oglobo.globo.com/blogs/arnaldo/default.asp?periodo=&palavra=tropa+de+elite), Arnaldo Bloch deu origem a mais essa polêmica, o que gerou respostas até mesmo por parte de Wagner Moura (que vive o herói-protagonista capitão Nascimento), em artigo ao "O globo" (http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2007/09/24/297856410.asp).
A questão que mais me aflige é justamente ver que o capitão Nascimento se tornou um herói nacional, fazendo as vezes de um Robin Hood do século XXI - condena os "riquinhos maconheiros", estudantes de uma universidade da Zona Sul, e defende os oprimidos, personificados na figura do aspirante Matias, que convive com os dois mundos - o da favela, de sua origem pobre, e o da burguesia, da faculdade onde estuda. Não que esta não seja parte da realidade. De fato o é. O problema é que ela não é tão simplista assim.
O intuito primeiro do filme não foi provocar tais generalizações e muito menos ser reacionário. Nesse âmbito, concordo com Wagner Moura, pois também não creio que o filme seja fascista, mas faço coro com Arnaldo Bloch com relação à reação do público. Se ele quase vomitou seu pastel de cordeiro, a mim falta apetite ao ver que um filme que inaugura um diferente modo de narrativa, expressa pelo ponto de vista da polícia, seja resumido a máximas como "o usuário é o principal culpado pelo tráfico" ou "estudante de faculdade particular da zona sul é burguês". Causa-me espanto ver que, infelizmente, é essa a "mensagem" que para muitos o filme passa. Mas causa-me mais surpresa ainda constatar que "Tropa" tornou-se um instrumento de afirmação da virilidade masculina - impossível dizer quantas vezes já ouvi "faca na caveira", "tira essa roupa preta porque você é moleque", dentre muitas outras das várias frases marcantes do filme. Se estas frases promovessem um debate sobre a violência no Rio, suscitassem questões relativas ao tráfico de drogas, sobre seu uso, ou até mesmo sobre sua legalização, enfim, se gerassem uma inquietação, um sentimento de revolta e indignação que o filme procura instigar no espectador (ao menos nos conscientes), não me importaria em ouvi-las como um mantra. A realidade, porém, é que "aspira" (que se tornou sinônimo de fraco, inexperiente, novato, em meio à ala masculina) é parte do povo brasileiro, que ao assistir a um filme de tamanha qualidade como "Tropa de elite", capaz de gerar uma reação efetiva contra a situação atual da nossa cidade, ao invés de idéias, só consegue propagar as palavras proferidas aos berros pelo capitão de uma nação falida. Plagiando a música-tema do filme - isso sim, é um osso duro de roer.

2 comentários:

Fil Porto disse...

Finalmente um tema novo...hahahaha.
Bem eu vi o filme no cinema, adorei, tanto como filme como crítica social.A realidade da década de 90 e a atual se confundem, a "tropa de elite" faz-se necessária em um contexto de guerra no qual estamos inseridos.
Concordo quando você e o Bloch criticaram as pessoas alienadas que parafraseam o filme, utilizando-se das palavras de ordem do personagem de forma vazia, apenas como afirmação do seu alter ego.Somos poucos os que sabem interpretar e discutir a relevância do filme, e que estão dispostos a encarar e mudar a realidade carioca e brasileira, pois muitos desejam que haja mais capitães nascimento espalhados pelo país para que possamos ter a paz e segurança tanto almejadas.

Hanzo disse...

Gostei do filme, mas, como um espectador de filme de ação.

A realidade não é tão simples como o filme retrata. Dentro dos vários conflitos sócio-econômicos que são mostrados, existem outros fatores que vão além da pobreza, do vício das drogas, da distribuição de renda... Mas os mais evidentes, são a alienação, e a imaturidade de nosso povo.

Há algumas semanas, ocorreu o assassinato de um oficial do BOPE. Tal foi o impacto do filme, que os cúmplices já se entregaram de prontidão, aterrorizados pelas imagens passadas pela obra de Padilha. Porém, o que mais me chocou, foi ler nos jornais de primeira categoria, os anúncios em notícias sérias, de que o BOPE iria subir o morro.

Sim, alguns jornais anunciaram que o BOPE subiria o morro, se o fato foi consumado, não sei, mas, achei um tanto patético que um jornal do escalão do Estado de São Paulo viesse a publicar uma notícia ao nível de tablóide, como se a vontade de ver o sangue de traficantes escorrendo morro abaixo fosse algo que a sociedade toda quisesse ver.

Nas ruas, e até mesmo em comerciais de TV, vemos crianças pronunciando as bravatas do filme. "Pede pra sair", "O sr. é um fanfarrão", "traz o saco", etc. Agora, o estrago foi feito, pois uma geração inteira de meninos e meninas está crescendo com uma visão deturpada sobre o que realmente está ocorrendo na sociedade. E as pessoas olham, dão risada, e falam "ah, que bonitinho".

Não vai mais ser tão bonitinho quando o garoto de treze anos, que sai esbravejando "pede pra sair" estiver torturando um colega de escola com um saco plástico. E nem quando um pequeno homicida imitar os movimentos do filme.

Nosso povo é muito imaturo para um filme desse tipo, infelizmente. E nossa sociedade, perde cada vez mais, a capacidade de proteger a si mesma da ferocidade e violência que ela mesma produz.

bjos

Quem sou eu

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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Bacharel em Letras-Português Inglês pela UFRJ - Jornalista formada pela UNESA. Por mim mesma (26/07/2007) Não sei desenhar. Não vejo novela. Não sei quem é a atriz do momento. Como a nêga, nunca fui à Bahia não. Nem quero ir. Não gosto de mate. Não faço pilates. Nem ioga. Odeio Paulo Coelho. Abomino Jabour e Mainardi. Não queria morar numa cabana. Não queria ter um iate. Queria ter menos preguiça. Queria ter menos vontade. Queria tocar piano. Queria cantar. Bem alto. Queria ler todos os livros bons. Queria ler a alma, dos maus. Queria comer chocolate e não engordar. Rir na hora de calar. Queria ter mais amigos verdadeiros Queria ter menos amores vãos. Queria ter poderes mágicos. De parar o tempo. De fazer voltar as horas. Queria ter mais vidas Pra caber tudo Que eu queria ser.