segunda-feira, janeiro 29, 2007

Tom Jobim... o maior de todos...

Não sei se fico revoltada com a Rede Globo, por não ter divulgado o especial do Tom Jobim da mesma maneira que divulga que toda terça é dia de eliminação no Big Brother, ou comigo mesma, por não ter me infomado mais. Peguei o programa já quase no final, mas a tempo de ver que a apresentadora poderia de fato ser designada assim, pois tratava-se de Camila Pitanga, e não da pseudo-atriz-mulher de diretor Fernanda Lima. Não, homens que sempre acham que temos problemas com mulheres lindas, não é isso... Aliás, a acho lindíssima, uma das modelos mais bonitas, só que modelo.. e só.. Porque ter tido que aturá-la apresentando o especial da Elis foi um esforço sobrenatural, pois via-se que sua função ali era desfilar a cada quadro diferente um novo modelito, que podia ou não combinar com o texto, mero coadjuvante... O mais irônico é que quando perguntada se possuía algum benefício por ser mulher do diretor, a beldade foi lacônica: "Ainda tenho muito a aprender, mas estou me esforçando.. " Bom, sem julgar de que maneira ela está se esforçando, com certeza esse esforço está sendo recompensador... pra ela.. porque pra nós, pobres telespectadores, assisti-la falando de Elis foi comparável a ver Cléo Pires ganhando um troféu de melhor artiz no lugar de Fernanda Montenegro... Louvada seja Camila Pitanga, que ganhou além da beleza, um grande talento..
Continuando a falar sobre o especial, o pouco que assiti fez com que me emocionasse...ver Sting cantando Tom foi maravilhoso... Lembro-me até hoje que fui eu quem deu a notícia da morte do nosso poeta ao meu pai, pelo telefone, em 1994. Tinha quatorze anos e só me lembro de ter ficado triste assim antes na morte de Gonzaguinha, a quem tive a felicidade de conhecer, apesar de ter por volta de uns onze anos somente (não me recordo a idade ao certo). O Tom eu vi apenas uma vez, em Copacabana, num almoço com meus pais, e hoje minha maior frustração é não ter assistido a um show dele. Lembro também que meu pai ficou muito abalado com a notícia, e que me arrependi de ter sido a porta-voz da mesma, ainda mais da maneira que foi...
Meu único consolo foi ter ido ao show que foi realizado no Claro Hall em homenagem a ele, que se transformou em DVD. Às vezes fico tentando escolher uma música preferida, mas fazer isso com as obras de Tom é quase impossível... O nome do meu blog já demonstra o quanto gosto de suas canções... No entanto, uma que me marcou muito foi Luiza... (tanto que penso em dar esse nome à minha filha) e posto aqui a letra... Posto também, logo em seguida, o poema de Drummond que Tom leu no especial...



Luiza

Composição: Antônio Carlos Jobim

Rua, Espada nua
Bóia no céu imensa e amarela
Tão redonda a lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E no silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas
Escuta agora a canção que eu fiz
Pra te esquecer Luiza
Eu sou apenas um pobre amador
Apaixonado
Um aprendiz do teu amor
Acorda amor
Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração

Vem cá, Luiza
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luiza
Luiza
Luiza

Poema da necessidade
Carlos Drummond de Andrade

É preciso casar João,
é preciso suportar, Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.

O especial "Tom Jobim: Eu sei que Vou te amar" prestou uma homenagem aos oitenta anos que o poeta estaria completando se ainda estivesse entre nós. Mas como disse Camila Pitanga, ao final do programa, parafraseando Guimarães Rosa: "Tom não morreu, tornou a se encantar".

E continuará nos encantando por muito tempo...

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Some poetry...

Seguindo a moda de fotos que
combinam com o post, resolvi
postar essa, bem sarcástica,
pra combinar com duas das quatro
poesias que vou postar aqui,
que aliás fiz no mesmo dia.
Exatamente um mês antes de
um evento marcante na minha
vida...sim, eu tenho um dom
premonitório rs. Ah, a última
descreve vários incidentes,
a odeio porque nunca ninguém
percebe o sentido que eu quis
dar, e não é esse o objetivo
principal da poesia? Bom, é ruim
então, se não alcançou o objetivo
que eu almejava, mas vou
postar aqui pra ver se alguém
descobre (dica: um dos "inci-
dentes" é o Tsunami).
Sem Título (provisoriamente rs)

Na escuridão de teus olhos
Na imensidão do teu céu
Mergulho sem pensar
O profundo silêncio se rompe
Com a intensidade do teu olhar

Gotas de chuva caem de meus olhos
E seu incessante arfar
Fundem-se numa união perfeita
Teu céu enfim
Desagüa no meu mar.




Despair

So naive was I to believe you
So desperate was the night
To deceive us

The smile too soon faded away
And so did the brightness of the day.



Aftermath

I have set myself free
You no longer own me

Once you were my love
Now you can’t even hold me

May sorrow be your company
I truly hope you have no rest
For now despair
Has become your only guest.




Indiferença / A Nova Era

Eu sonhei que a imensidão azul se enfurecia
E a tudo consumia

Eu sonhei que o vento soprava tanto
Que fez perder o som o sax

Eu sonhei que rajadas de luz cortavam o céu sagrado
Numa guerra com as estrelas

Eu sonhei que um clarão de luz fez parar a egrenagem
Do grande relógio, do tempo

Acordei assustada do meu sonho.
Fechei os olhos
E desliguei a TV.


terça-feira, janeiro 16, 2007

Pensativa....

















Postei esta foto pra combinar com meu estado atual... bem pensativa... Estou de férias há seis meses do trabalho, já não agüento mais!! Bom, depois de sair demais, acho que sosseguei um pouco, estou mais em casa, então estou aproveitando este tempo livre, que eventualmente acabará, para assistir a muitos filmes (antes que algum desavisado venha falar algo é assitir a mesmo o certo rs). Alguns no Telecine mesmo, outros em dvd. Sempre fui apreciadora da Sétima Arte, mas havia tempo que não ia ao cinema. O último filme que havia visto nas telonas era "O Código da Vinci". Minha volta ao cinema foi, no entanto, recompensadora, com "O Ilusionista". Um filme que se passa em Viena, e cuja trama inclui um romance proibido entre o famoso ilusionista Eisenheim (Edward Norton) e a futura princesa Sophie (Jessica Biel). Um final surpreendente, mas que minha mãe, cinéfila, adivinharia facilmente... então surpreendente para os não-aficcionados por cinema rs. Bom, depois desse assisti em dvd "A casa do lago", um romance com Keanu Reeves e Sandra Bullock. Um filme cujo tema principal é o amor além do tempo, e que faz, na minha opinião, uma metáfora ao citar o livro "Persuasion", de Jane Austen (autora do livro que eu amo, Pride and Prejudice), onde os amantes não podem viver o seu amor por diversas razões, e vêm a se reencontrar anos depois, mas aí já é tarde demais, o "momento" deles parece que passou. As personagens centrais de "A casa do lago" vivem exatamente isso, em "tempos diferentes" - ela em 2006 e ele em 2004. É muito comum vermos o tema "amor após a morte", como em "Ghost", mas este filme usa, sem ser piegas, o tempo como elemento central, para levantar questões sobre a relação entre esse tempo (seja ele real ou metafórico) e o amor, que pode tanto unir quanto separar as pessoas.
Mudando completamente de gênero, recomendo "Posseidon". É uma refilmagem de "O Destino do Poseidon" (que aliás nunca vi rs), clássico de 1972. O filme é sobre um transatlântico de nome homônimo que é atingido em plena noite de Ano Novo. Consegue prender bastante, há muita tensão, e há um romance, como em "Titanic", mas ele não é o elemento central. Nossa, fiquei extremamente nervosa vendo esse filme, em parte porque meu paizinho querido, engenheiro civil especializado em hidráulica marítima, sempre me alertou em relação ao mar, então criei um pequeno, digamos assim, trauma (desculpa paizinho, mas é verdade - o que pra ele é péssimo, já que tenho medo de andar de lancha com ele e de velejar também haha). Bom, voltando ao filme, apesar de um pouco mentiroso, como todo bom filme de ação, achei uma excelente pedida dentro do gênero.
Logo em seguida assiti a "Xeque-mate" (em inglês Lucky Number Slevin), um filme policial com Bruce Willis, Morgan Freeman, Josh Hannet (um dos novos queridinhos de Hollywood e das atrizes hollywodianas também rs). Não vou fazer aqui uma breve sinopse do filme porque ele tem uma trama tão intricada que é daqueles filmes que é melhor nem ler a sinopse, e sim assistir logo. Ao contrário de "O Ilusionista", onde eu não previ o final de maneira nenhuma, esse eu consegui adivinhar, mas mesmo assim achei um dos melhores filmes policias que já vi.
Para terminar com muito bom humor, o filme que me arrancou gargalhadas e me fez chorar de tanto rir: "Apenas Amigos" (tradução exata do inglês, "Just Friends"). Passou no Telecine, e apesar de eu não ter pego o início, o filme me prendeu até o final. O que são as expressões de Ryan Reynolds (o hilário ator do também hilário "O dono da festa")? O filme é muitooooo, mas muito bobo mesmo, ou seja, acaba com qualquer eventual deprê.
Assim termino meu post, com um pensamento contraditório - entediada com as férias, mas querendo, no fundo, que elas continuassem pra sempre, pra poder assistir a muitos e muitos mais filmes!!!!

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Parabéns irmãozinho lindo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



















Hoje é aniversário do meu irmão lindo. Há vinte anos nascia esse menino que me fez deixar de ser filha única e embarcar em um universo completamente diferente do que eu imaginava. Lembro-me como se fosse hoje, tinha seis anos e exatos cinco meses, pois ambos nascemos no dia oito. Minhas primeiras palavras pra minha mãe quando fui apresentada a meu irmão foram: _ Nossa, mas como é feio! haha E vermelho! Era feio e todo vermelhinho, o pimpolho! Como sou grata de lembrar desse momento, apesar de me recordar que do alto de minha "maturidade" ao seis anos de idade, senti um misto de sentimentos, que variavam entre alegria e perda. Sabia que minha mãe e meu pai não iam ser só meus mais, mas afinal, o que eu estava reclamando? Era eu que tinha "pedido um irmãozinho"... Apesar de toda criança pedir isso, ele foi um presente inesperado... Seu nome, Thiago, com "th" mesmo, foi escolhido por mim em homenagem ao homem da minha vida, que também tinha seis anos...rs
Nossa diferença de idade sempre fez com que meu irmão me admirasse, até que veio a adolescência.... Lembro que quando eu tinha uns treze anos, estava começando a virar mocinha, e ele tinha apenas seis, brincava com ele como se ainda fosse criança... Sempre gostei muito de criança, e hoje, apesar de amar a afinidade que tenho com meu irmão nessa fase adulta, sinto saudade do tempo em que ele era apenas um menino, e eu brincava de ser sua mãe...
Ter um irmão nos ensina muito sobre nossa própria identidade. Aprendemos logo que por mais que tenhamos os mesmos pais, nossa educação jamais será igual e nem nossa personalidade. Ser filha única tinha suas vantagens, a atenção era toda voltada pra mim... Mas se eu pudesse voltar no tempo e tivesse a opção de escolher, faria tudo de novo! Pois ter um irmão é ter um amigo que vi crescer, que compartilhei tristezas e alegrias, que odiei em alguns momentos, mas que com certeza amei em muitos outros mais... Tenho orgulho não só de ser sua irmã, mas de saber que mais do que irmãos, somos amigos. Parabéns pra você maninho lindo! Que você seja muito feliz e consiga tudo que almeja! Te amo muitoo!!!!!!
Espero que eu consiga parar de ver você sempre como a criança que você era (tenho ciúme pior que de mãe), e aceite que o tempo passou e que você hoje é um homem, e não precisa mais de uma irmã chata pra cuidar de você... Mas estarei sempre ali, ainda que não perceba, e mesmo que não mais precise...

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Simplesmente Sensacional...


Meu Ano Novo foi assim, simplesmente sensacional... Ao lado de amigos muito, mas muito queridos mesmo... Uns cuja amizade cultivo há quase 15 anos, como a Fê e o Marci, outros mais recentes, mas não importa... O valor de uma verdadeira amizade não está no tempo...
Ano Novo é sempre uma época de reflexão, de arrependimentos, de promessas.... Pois neste ano que passou, fiz coisas que jamais esperava fazer (minha tatoo por exemplo), conheci pessoas de todos os tipos, de todas as idades, conheci vários lugares novos, enfim, vivi bastante.... Mas vivi com a consciência de que o que realmente importa na vida são as pessoas que amamos, e tê-las ao nosso lado, com saúde, é uma bênção, e deveríamos agradecer a Deus todos os dias por isso... Agradeço aqui então àqueles que me fizeram sorrir, àqueles que me fizeram chorar, àqueles que me esqueceram e àqueles que jamais vão me esquecer... Pois de uma forma ou de outra todos contribuíram para que eu pudesse simplesmente viver.... e aprender que perdoar aos outros é, antes de mais nada, conseguir perdoar a si mesmo.... Hoje me sinto uma pessoa mais forte, que aprendeu a dar mais valor à família e aos amigos.... o resto é detalhe... Feliz 2007 pra todos vocês !!!!!!

domingo, dezembro 31, 2006

Feliz Ano Novo!!!!!!! Happy New Year!!!!!!!!!!!!!!


Receita de ano novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, dezembro 24, 2006

Feliz Natal para todos!!!!!


Poema de Natal
Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Parabéns Pai!!!!

Hoje é aniversário do meu papi!!! Em sua homenagem, Fernando Sabino! Te amooo papi! Obrigada por tudo!

Como Dizia Meu Pai
Fernando Sabino

JÁ SE TORNOU HÁBITO MEU, em meio a uma conversa, preceder algum comentário por uma introdução:— Como dizia meu pai...

Nem sempre me reporto a algo que ele realmente dizia, sendo apenas uma maneira coloquial de dar ênfase a alguma opinião.

De uns tempos para cá, porém, comecei a perceber que a opinião, sem ser de caso pensado, parece de fato corresponder a alguma coisa que Seu Domingos costumava dizer. Isso significará talvez — Deus queira — insensivelmente vou me tornando com o correr dos anos cada vez mais parecido com ele. Ou, pelo menos, me identificando com a herança espiritual que dele recebi.

Não raro me surpreendo, antes de agir, tentando descobrir como ele agiria em semelhantes circunstâncias, repetindo uma atitude sua, até mesmo esboçando um gesto seu. Ao formular uma idéia, percebo que estou concebendo, para nortear meu pensamento, um princípio que se não foi enunciado por ele, só pode ter sido inspirado por sua presença dentro de mim.

— No fim tudo dá certo...

Ainda ontem eu tranqüilizava um de meus filhos com esta frase, sem reparar que repetia literalmente o que ele costumava dizer, sempre concluindo com olhar travesso:

Se não deu certo, é porque ainda não chegou no fim.

Gosto de evocar a figura mansa de Seu Domingos, a quem chamávamos paizinho, a subir pausadamente a escada da varanda de nossa casa, todos os dias, ao cair da tarde, egresso do escritório situado no porão. Ou depois do jantar, sentado com minha mãe no sofá de palhinha da varanda, como namorados, trocando notícias do dia. Os filhos guardavam zelosa distância, até que ela ia aos seus afazeres e ele se punha à disposição de cada um, para ouvir nossos problemas e ajudar a resolvê-los. Finda a última audiência, passava a mão no chapéu e na bengala e saía para uma volta, um encontro eventual com algum amigo. Regressava religiosamente uma hora depois, e tendo descido a pé até o centro, subia sempre de bonde. Se acaso ainda estávamos acordados, podíamos contar com o saquinho de balas que o paizinho nunca deixava de trazer.

Costumava se distrair realizando pequenos consertos domésticos: uma bóia de descarga, a bucha de uma torneira, um fusível queimado. Dispunha para isso da necessária habilidade e de uma preciosa caixa de ferramentas em que ninguém mais podia tocar. Aprendi com ele como é indispensável, para a boa ordem da casa, ter à mão pelo menos um alicate e uma chave de fenda. Durante algum tempo andou às voltas com o velho relógio de parede que fora de seu pai, hoje me pertence e amanhã será de meu filho: estava atrasando. Depois de remexer durante vários dias em suas entranhas, deu por findo o trabalho, embora ao remontá-lo houvesse sobrado umas pecinhas, que alegou não fazerem falta. O relógio passou a funcionar sem atrasos, e as batidas a soar em horas desencontradas. Como, aliás, acontece até hoje.

Tinha por hábito emitir um pequeno sopro de assovio, que tanto podia ser indício de paz de espírito como do esforço para controlar a perturbação diante de algum aborrecimento.

— As coisas são como são e não como deviam ser. Ou como gostaríamos que fossem.

Este pronunciamento se fazia ouvir em geral quando diante de uma fatalidade a que não se poderia fugir. Queria dizer que devemos nos conformar com o fato de nossa vontade não poder prevalecer sobre a vontade de Deus - embora jamais fosse assim eloqüente em suas conclusões. Estas quase sempre eram, mesmo, eivadas de certo ceticismo preventivo ante as esperanças vãs:

— O que não tem solução, solucionado está.
E tudo que acontece é bom — talvez não chegasse ao cúmulo do otimismo de afirmar isso, como seu filho Gerson, mas não vacilava em sustentar que toda mudança é para melhor: se mudou, é porque não estava dando certo. E se quiser que mude, não podendo fazer nada para isso, espere, que mudará por si.

Às vezes seus princípios pareciam confundir-se com os da própria sabedoria mineira: esperar pela cor da fumaça, não dar passo maior do que as pernas, dormir no chão para não cair da cama. Os dele eram mais singelos:

— Mais vale um apertinho agora que um apertão o resto da vida.

— Negócio demorado acaba não saindo.

— Dinheiro bom em coisa boa.

— Antes de entrar, veja por onde vai sair.

Um dia me disse, ao me surpreender tentando armar um brinquedo qualquer com mãos desajeitadas:

— Meu filho, tudo que é bem feito se faz com os dedos, não com as mãos.

Tenho tido ocasião ao longo da vida de observar como é procedente este seu ensinamento. A mão é grossa, pesada, insensível. Se não fossem os dedos de nada serviria, a não ser para dar bofetadas. Os dedos são refinados, sensitivos, e a eles devemos tudo o que é bem feito e acabado: do mais requintado trabalho manual às mais complicadas operações, da mais fina sensação do tacto à mais terna das carícias.

— Se o cafezinho foi bom, melhor não aceitar o segundo: será sempre pior que o primeiro.

Como tudo mais nessa vida: uma viagem, uma mulher: não repetir, pois a emoção jamais será a mesma da primeira vez. E não desanimar, pois se nascemos nus e estamos vestidos, já estamos no lucro. Nada neste mundo é cem por cento perfeito. Se contamos com mais de cinqüenta por cento, também já estamos no lucro. Quando conseguimos o que é apenas bom, naturalmente devemos continuar aspirando o melhor, se possível - mas perfeição absoluta, só Deus. E creio que Seu Domingos, homem íntegro, reto e temente a Deus, hoje em Sua companhia, não consideraria sacrilégio comentar, naquele seu jeito ladino:

— E assim mesmo, olhe lá...

Seus conselhos eram de tamanha simplicidade que tinham a força de provérbios nascidos da voz do povo: nada como um dia depois do outro, um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar, tudo tem seu tempo. Fosse ele influenciado por leituras piedosas, poderíamos mesmo detectar, aqui e ali, vestígios de inspiração bíblica: tempo de semear, tempo de colher...

— É o que nos acontece.

Há uma diferença sutil entre admitir que as coisas são como são, não como deviam ser, e reconhecer que é o que nos acontece. Aqui, o comentário não pretendia refletir a impossibilidade de modelar (com os dedos) os fatos de acordo com a nossa vontade, mesmo que esta esteja certa. Exprime antes a humilde aceitação da nossa precária condição humana, como frágeis criaturas de Deus. Procura se solidarizar com a desgraça alheia, como a dizer que também estamos sujeitos a ela, somos todos irmãos na mesma atribulação. É o que nos acontece.

Portanto, alegremo-nos! Uma amiga minha, que não o conheceu, busca nele se inspirar quando afirma, sempre que se vê diante de algum contratempo:

— Antes de mais nada, fica estabelecido que ninguém vai tirar o meu bom humor.

Acabei levando esta disposição de minha amiga às últimas conseqüências: o mais importante é não perder a capacidade de rir de mim mesmo. Como Cartola e Carlos Cachaça naquele samba, às vezes dou gargalhadas pensando no meu passado.. . E cada vez acredito mais no ensinamento recebido não sei se de meu pai ou diretamente de Confúcio, segundo o qual há várias maneiras de realizar um desejo, sendo uma delas renunciar a ele. Como adverte outro sábio, se desejamos obstinadamente alguma coisa, é melhor tomar cuidado, porque pode nos suceder a infelicidade de consegui-la.

Tudo isso que de uns tempos para cá vem me vem ocorrendo, às vezes inconscientemente, como legado de meu pai, teve seu coroamento há poucos dias, quando eu ia caminhando distraído pela praia. Revirava na cabeça, não sei a que propósito, uma frase ouvida desde a infância e que fazia parte de sua filosofia: não se deve aumentar a aflição dos aflitos. Esta máxima me conduziu a outra, enunciada por Carlos Drummond de Andrade no filme que fiz sobre ele, a qual certamente Seu Domingos perfilharia: não devemos exigir das pessoas mais do que elas podem dar. De repente fui fulminado por uma verdade tão absoluta que tive de parar, completamente zonzo, fechando os olhos para entender melhor. No entanto era uma verdade evangélica, de clareza cintilante como um raio de sol, cheguei a fazer uma vênia de gratidão a Seu Domingos por me havê-la enviado:

Só há um meio de resolver qualquer problema nosso: é resolver primeiro o do outro.

Com o tempo, a cidade foi tomando conhecimento do seu bom senso, da experiência adquirida ao longo de uma vida sem maiores ambições: Seu Domingos, além de representante de umas firmas inglesas, era procurador de partes — solene designação para uma atividade que hoje talvez fosse referida como a de um despachante. A princípio os amigos, conhecidos, e depois até desconhecidos passaram a procurá-lo para ouvir um conselho ou receber dele uma orientação. Era de se ver a romaria no seu escritório todas as manhãs: um funcionário que dera desfalque, uma mulher abandonada pelo marido, um pai agoniado com problemas do filho — era gente assim que vinha buscar com ele alívio para a sua dúvida, o seu medo, a sua aflição. O próprio Governador, que não o conhecia pessoalmente, certa vez o consultou através de um secretário, sobre questão administrativa que o atormentava. Não se falando nos filhos: mesmo depois de ter saído de casa, mais de uma vez tomei trem ou avião e fui colher uma palavra sua que hoje tanta falta me faz.

Resta apenas evocá-la, como faço agora, para me servir de consolo nas horas más. No momento, ele próprio está aqui a meu lado, com o seu sorriso bom.

O texto acima foi publicado originalmente no livro "A Volta por Cima" e extraído de "Fernando Sabino - Obra Reunida, Vol. III", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1996, pág.611.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Grandes Esperanças


Great Expectations - by Charles Dickens
Lembro-me como se fosse hoje - aula de Literatura Inglesa, senhora Ruth Percise (será que era assim que se escrevia?) nos mandou ler o clássico de Dickens, Great Expectations. In English, of course. Adquiri o exemplar de capa dura no sebo da UFRJ, por míseros dois reais, acreditem! Ainda dei a sorte de uma alma estudiosa, a quem o livro pertencera antes, ter feito inúmeras anotações e traduções. O inglês era, claro, um pouco difícil, e com os milhares de livros para ler que eu tinha todo período, lembro que até tentei, mas deixei-o de lado para fazer uso da "velha" e boa Internet (mea culpa rs). Confesso que acabo de me arrepender. Assiti pela primeira vez, agora há pouco, no Telecine Emotion, o filme sobre esta obra de Dickens. O começo é um pouco enfadonho, mas agora alegro-me de não ter desistido. Já havia "julgado o livro pela capa" (ou seja, deixado-o de lado porque o inicío me pareceu insuportável) - resolvi não fazer o mesmo com o filme. Sábia escolha. Ethan Hawke, Robert de Niro e Gwyneth Paltrow estão, na minha humilde opinião, impecáveis. O diretor é Alfonso Cuarón, e o filme é de 1998. Ironicamente, a modernização do clássico de Dickens me inspirou a mergulhar na sua obra original. Com todo o tempo do mundo, 8 anos depois, retomarei meu clássico abandonado. Só espero que Sir Dickens me perdoe.

sábado, dezembro 09, 2006

Contrariando o post anterior...


Bem...ontem (aliás, mais precisamente hoje rs) falei que era notívaga, e contrariando meu hábito usual, cá estou eu escrevendo de dia! Um dia meio nublado, devo admitir, mas ainda sim dia! Postei a primeira poesia que recebi na vida e decidi postar também a primeira poesia que fiz - ou pelo menos a primeira de que me lembro... rs
Foi para o meu primeiro amor, eu tinha 15 anos, é bem adolescente, então por favor dêem um desconto ;)

Meu ser

Do orvalho, a folha
Da semente, o grão
Da dúvida, a escolha
Da loucura, a razão

És meu tudo, és meu nada
És meu anseio, minha chegada
És correnteza, água do mar
És a certeza do incessar

Meu pôr-do-sol, minha nascente
És minha alma, és minha mente
És meu refúgio, minha crença
És minha cura, minha doença

És da dor, meu alívio
Da agonia, do suplício
És de mim o querer
És meu desejo, és meu ser.

A notívaga kkkkk

Sempre fui assim...amo o dia, mas sempre preferi a noite...a noite chega e me dá uma agonia cada vez maior de saber que alguma hora tenho que dormir...odeio ter que dormir na hora marcada, odeio acordar cedo ... minha mãe sempre tentava, desde o primário...estuda minha filha, antes das provas, todo dia, um pouquinho..mas sempre deixei pra cima da hora, e só conseguia mesmo estudar efetivamente à noite... Começo esse post com uma de minhas poesias preferidas...

Desencanto (Manuel Bandeira)

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue.Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão..
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

Eu faço versos como quem morre.

Continuando a falar de Bandeira, tenho um livro organizado por ele chamado "Antologia dos Poetas Brasileiros- Poesia da fase romântica" - que contém a primeira poesia que recebi na vida, que aliás abre o livro. Eu devia ter uns treze anos (infelizmente não tem data), foi no colégio, uma menina que me entregou. Aliás, está escrito com letra feminina (pois é, eu o tenho até hoje, porque guardo tudo que recebo rs), e somente o nome David Jr. ao pé do cartão e o telefone. Nunca soube quem era...rs Posso ter deixado escapar meu grande amor, será? David, se por acaso ler isso, se manifeste, estou solteira! haha Brincadeiras à parte, não quis ser egocêntrica ao revelar isso, mas essa poesia realmente me marcou, então revolvi postá-la, e não poderia postá-la sem explicar o porquê de ter me marcado...


Formosa (Maciel Monteiro)

Formosa, qual pincel em tela fina
Debuxar jamais pôde ou nunca ousara;
Formosa, qual jamais desabrochara
Na primavera a rosa purpurina;

Formosa, qual se a própria mão divina
Lhe a alinhara o contorno e a forma rara;
Formosa, qual jamais o céu brilhara
Astro gentil, estrela peregrina;

Formosa, qual se a natureza e a arte,
Dando as mãos em seus dons, em seus lavores,
Jamais soube imitar no todo ou parte;

Mulher celeste, oh! anjo de primores!
Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te, sem morrer de amores?!

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Por toda minha vida


"Minha bem amada
Quero fazer de um juramento uma canção
Eu prometo, por toda a minha vida
Ser somente teu e amar-te como nunca
Ninguém jamais amou, ninguém
Minha bem amada
Estrela pura, aparecida
Eu te amo e te proclamo
O meu amor, o meu amor
Maior que tudo quanto existe"

Pensei em inaugurar o blog com uma poesia... então resolvi juntar meus dois maiores amores - música e poesia - é sem dúvida uma de minhas músicas preferidas e certamente uma poesia musicada... e não uma letra de música somente... Aos dois maiores poetas do som e da palavra dedico o título do meu blog, pois niguém pôde expressar tão bem em tão poucas palavras a devoção que causa o amor...

Quem sou eu

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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Bacharel em Letras-Português Inglês pela UFRJ - Jornalista formada pela UNESA. Por mim mesma (26/07/2007) Não sei desenhar. Não vejo novela. Não sei quem é a atriz do momento. Como a nêga, nunca fui à Bahia não. Nem quero ir. Não gosto de mate. Não faço pilates. Nem ioga. Odeio Paulo Coelho. Abomino Jabour e Mainardi. Não queria morar numa cabana. Não queria ter um iate. Queria ter menos preguiça. Queria ter menos vontade. Queria tocar piano. Queria cantar. Bem alto. Queria ler todos os livros bons. Queria ler a alma, dos maus. Queria comer chocolate e não engordar. Rir na hora de calar. Queria ter mais amigos verdadeiros Queria ter menos amores vãos. Queria ter poderes mágicos. De parar o tempo. De fazer voltar as horas. Queria ter mais vidas Pra caber tudo Que eu queria ser.